Há alguns anos, a atriz Dira Paes passou a viver em uma ilhota na Barra da Tijuca, em pleno Rio de Janeiro. Foi assim, entre árvores frutíferas, fauna local e com energia solar, que ela encontrou seu ponto de equilíbrio.
01.10.2012 Texto por Renato Lemos
Fotos Jorge Bispo
A casa da gente – o lugar que nos dá segurança, conforto e equilíbrio – normalmente é formada de paredes, teto, um chão firme e um cheiro que só ela tem. A casa de Dira Paes, erguida na zona oeste do Rio de Janeiro, é uma casa como muitas outras: tem parede, tijolos, chão, teto e o cheiro (manjericão, água salgada, manga e comida no fogo) que ela reconhece como seu. Mas, para se sentir em casa, Dira não precisa atravessar a porta de madeira grossa e tropeçar nos brinquedos do filho, Inácio, 5 anos, espalhados pelo chão. Quando coloca os pés em sua chalana, uma espécie de balsa achatada que a leva do continente para a ilha Primeira, pedaço de terra situado em uma das lagoas da Barra da Tijuca, Dira já está em casa.
“Às vezes tenho um dia ruim, saio do Projac tarde, pego um trânsito tumultuado e é só entrar no barquinho que as coisas começam a se arrumar. Por mais que balance, a chalana me reequilibra. Sou canceriana, o signo das águas.” A chalana de Dira, comprada de um argentino e por isso mesmo batizada de La Boca, em homenagem ao Boca Juniors, é uma extensão de sua casa. Quase uma varanda. As duas coisas – a barca e a casa em si – foram escolhas conscientes da atriz. É sua ideia de lar. Diz que foi morar na ilha porque queria estar mais perto da natureza e das coisas mais importantes para ela. “Era um terreno só. Gosto de pensar que comprei o terreno e as árvores em cima dele. Um lugar com muita luz e muito céu. Depois de tudo, do terreno e das árvores, é que veio a casa.”
ENTRE FRUTAS E PÁSSAROS
As árvores ali não são poucas. Ela coça a cabeça, sorri e enumera pelo menos 13 espécies frutíferas. Vamos lá: jaca, manga, banana, jabuticaba, cupuaçu, pitanga, coco, abacate, carambola, araçá, graviola, acerola e goiaba. Misturado a elas, um jardim zoológico informal: cachorros, gatos, papagaios, maritacas e cágados circulam pelo terreno. Na vizinhança, é possível ver micos, galinhas-d’água, colhereiros, garças, flamingos e – os preferidos de Dira – martins-pescadores. “É um pássaro lindo. Por um triz o Inácio não se chamou Martim.”
Inácio é filho de Dira com o fotógrafo de cinema Pablo Baião, com quem está casada há sete anos. Dira está com 43. Os três moram junto com os bichos, as árvores, os brinquedos e a água da lagoa. Há também os livros, as obras de arte, os troféus recebidos pela atriz, as fotos, os filmes escolhidos a dedo. Cada coisa ali é pensada. “Eu ia ser engenheira, depois é que decidi ser atriz. Gosto das coisas planejadas”, explica Dira, completando que fez questão de aplicar o ecologicamente correto no lugar onde vive: “Aqui a água da chuva é reciclada, a água do banho é aquecida por energia solar, tenho horta orgânica e minhocário. Isso me deixa tranquila. É importante passar essas noções para o Inácio”.
Ao contrário do que muita gente imagina, a escolha de um lugar cercado de verde, bicho e água não tem a ver com as origens paraenses da atriz. “Era muito mais urbana em Belém do que aqui. Morava numa casa de rua, com asfalto, poste, carro, essas coisas.” A viagem de Belém até o Rio de Janeiro aconteceu há 26 anos, depois que estreou no cinema em A floresta das esmeraldas, dirigida pelo inglês John Boorman (de Excalibur). “Foi uma experiência avassaladora”, resume. O cinema entrou pelo sangue. No Rio, foi fazer curso de teatro na CAL (Casa de Artes de Laranjeiras), mas não ficou nem uma semana. Foi logo chamada para filmar Ele, o boto, de Walter Lima Junior. Era uma garota de vestido curto, novinha, pele morena e corpo perfeito. Aí estourou de vez.
Desde então são nada menos que 32 longas, mais de um por ano. Isso contando uma época – início dos anos 1990 – em que o cinema brasileiro quase parou sua produção e não conseguia juntar mais do que meia dúzia de gatos pingados em cada sessão. Dira esteve firme. Musa de filmes ousados, como Amarelo manga, de Cláudio Assis, a arrasa quarteirões de bilheteria, como 2 filhos de Francisco, de Breno Silveira, com mais de 5 milhões de espectadores. De experiências radicais, como A festa da menina morta, de Matheus Nachtergaele, a roteiros espertos, como Meu tio matou um cara, de Jorge Furtado.
Dira continua em cartaz. Agora com a comédia comercial E aí, comeu? (“Gosto muito do filme. É direto, sem disfarces”) e repetindo a dobradinha de sucesso com Breno em À beira do caminho. O longa – sobre um caminhoneiro que cruza o país na tentativa de ajustar contas com seu passado – é um mergulho sentimental pelas estradas ao som do rei Roberto Carlos.
“A Dira não é só uma beleza surpreendente, brasileira, índia, é uma atriz de cinema”, tenta resumir Breno. “Não que não se possa ser atriz na TV, claro que pode, mas o cinema exige uma introspecção, um domínio do tempo e do silêncio que ela tem como poucos.” Breno conta que no primeiro trabalho dos dois – 2 filhos de Francisco – tinha descartado a atriz após a primeira leitura. “Aí ela pediu para refazer e, quando refez, vi que o papel era dela. A Dira sabe o que quer. Tem atitudes políticas, engajamento em tudo. Isso é muito bom para qualquer diretor.”
CIDADÃ ENGAJADA
Dira Paes é política até a última tigela de açaí – um traço que não está presente apenas na forma como conduz as coisas em sua casa. Ela faz parte do movimento Humanos Direitos, que pretende valorizar conceitos de ética e cidadania. “Sou uma artista-cidadã. Durante muito tempo estive na periferia dos movimentos sociais, mas os conflitos de terra me engajaram de vez. Não é possível que o mogno no Pará tenha sido extinto.”
Depois de andar pelo país inteiro em filmagens, campanhas políticas e festivais, a atriz elaborou um conceito sobre o lugar em que vive – e o lugar em que quer viver. “Tem um Brasil que não combina com outro. Não é possível a corrupção levar 30% da arrecadação enquanto a gente vê criança abandonada na rua!”, discursa, dando ênfase nas exclamações. Na sua cruzada, ela não abre mão de misturar o que pensa com o que faz. Dá a cara a tapa: “O artista não pode ter pudor”.
Como no cinema, Dira jogou o pudor para o lado em suas aparições na TV. Fez um monte de novelas desde o remake de Irmãos Coragem, em que interpretava a índia Potira. “Nunca procurei emprego na televisão, nunca bati na porta de ninguém. Entrei pelo que fiz no cinema”, explica. “Achava que não tinha tipo físico para a TV. Não tinha ninguém como eu lá, achava que não gostavam do meu tipo.”
Gostavam, sim. O sucesso popular chegou com Solineuza, a faxineira matusquela do seriado A diarista. Norminha, sua personagem em Caminho das Índias, também caiu nas graças do povo. Ela espera que o mesmo se repita em Salve Jorge, de Gloria Perez, a próxima novela das 9 que estreia no fim de outubro. Na trama, ela vive a mãe da protagonista, a atriz Nanda Costa, e encarna o papel de avó aos 43 anos. “Minha personagem teve filho cedo, há muita avó por aí com a minha idade”, justifica. “É a Gloria de novo enxergando a realidade. Minha personagem, aliás, mora no Complexo do Alemão. Danço funk e pagode. Estou tendo que rebolar, meu amigo.”
Rebolar ali não é exatamente um problema. Dira não abre mão dos exercícios físicos. Corre três vezes por semana. Malha no clube do outro lado da rua – ou do canal, vá lá – com um personal. “É o melhor tratamento de beleza que se pode ter. Para arrematar, ducha gelada. “Não é só o sangue que circula melhor, não, é o cérebro também. Depois de uma ducha fria a gente sai mais inteligente”, ri.
BICHO DE CINEMA
“O que me chama a atenção na Dira é a inteligência em cena. Ela é um bicho de cinema”, diz o ator João Miguel (de Estômago), que contracenou com a atriz pela primeira vez em À beira do caminho. “Eu a via a distância e era louco pelo trabalho dela. É de uma geração que pensa o Brasil, a presença dela no filme diz muito sobre isso.”
O Brasil que o filme mostra – de cidades do interior, biroscas, postos de gasolina e estradas esburacadas – é parte de uma lembrança que a atriz tenta sempre resgatar. Um Brasil das entranhas, do sol a pino, da infância descompromissada – e que, às vezes, volta de uma forma surpreendente. Ela também viaja no tempo quando olha para o filho, Inácio, brincando no jardim. É um menino esperto. Pergunta coisas. Corre. Experimenta. Diz que quer dar ao filho a chance de escolher. E que ser mãe, de muitas formas, realiza uma existência: “Ser mãe justifica tudo. Te dá um chão e uma sensação de segunda chance. Eu me tornei muito melhor, em tudo, depois que fui mãe”.